Maná Celestial

Autora: Cristiane Fioravante Reis (NEPE Nas Rotas do Cristo/FEEGO)

A belíssima passagem do maná celestial é apresentada em Êxodo 16: 1-35 [1]. Nesse trecho é descrito o início da saga do Povo de Israel rumo à Terra Prometida de Canaã. Após mais de 400 anos de escravidão no Egito, em que o Povo de Israel foi submetido a trabalhos forçados de toda ordem, Moisés recebe de Deus a missão de libertá-lo. Afinal, caberia a esse povo disseminar a crença de um Deus único no Planeta Terra, em razão de ser o primeiro povo monoteísta [2].

Mas para isso, os israelitas precisavam aprimorar sua crença no até então deus de Abraão, de Isaac e de Jacó (Israel) [1]. Esse deus que se revela como Iahweh ou Deus à Moisés, grande médium de efeitos físicos e com papel crucial na história da humanidade, em razão do recebimento dos dez mandamentos no Monte Sinai [1, 2].

Em geral, o Povo Israelita era extremamente revoltado e indisciplinado [1]. Moisés, ciente desses comportamentos, opta por percorrer o caminho mais longo no deserto rumo a Canaã. Naquele tempo, havia um caminho mais curto pela costa que margeava o Mar Mediterrâneo. Ao transitar por um caminho mais longo e desconhecido, Moisés protegeu os israelitas de si mesmos, de desistirem da marcha e voltarem ao Egito, na tentativa de ficarem presos a um estágio evolutivo como escravos, condição tal que não mais os cabia vivenciar. Com isso, eles puderam exercitar a disciplina, aprimorar a inteligência e a moralidade, exercitar o domínio das más tendências e, consequentemente, aprimorar a crença em Deus [3, 4, 5].

Vale mencionar que as condições ambientais no deserto são extremamente complicadas e áridas [4, 6]. Há uma elevada amplitude térmica, ou seja, a diferença de temperaturas entre o dia e a noite é muito grande. Durante a noite, a temperatura média pode chegar a -5º C e no decorrer do dia a 40º C. A umidade relativa média do ar é extremamente baixa, em torno de 30%, o que pode levar a problemas respiratórios. A precipitação pluviométrica média anual, ou seja, a quantidade de chuvas é de 200 mm, algo aproximadamente oito vezes menor que a média anual de Goiânia. Os solos são arenosos e as reservas de água são escassas, o que faz com que a vegetação seja constituída por gramíneas e pequenos arbustos, ralos e espaçados, os quais nem sempre são fontes de alimentos. Essas condições tornam a prática da agricultura complicada e, para um povo em trânsito como o israelita, esse processo era ainda mais difícil.

Assim, em cerca de dois meses e meio após a partida do Egito, os alimentos trazidos para a viagem começaram a se esgotar e, com isso, o povo começa a se rebelar [1]. Em uma das passagens do Velho Testamento tem-se: “Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh na terra do Egito, quando estávamos sentados junto à panela de carne e comíamos pão com fartura! Certamente nos trouxestes a este deserto para fazer toda essa multidão morrer de fome” [1]. E essa multidão era superior a 600 mil homens, sem contar mulheres e crianças [1].

Ante a fome física, a necessidade material imediata, os israelitas esqueciam seu ideal de liberdade e se rebelavam [5]. Nos relatos dos Livros do Êxodo e de Números, a marcha pelo deserto está pontilhada de murmurações do povo de

Israel: contra a sede, contra a fome e contra os perigos de guerra [1]. Israel é um povo arredio, que rejeita até os benefícios de seu Deus [1].

Há relatos que Moisés tenha vivido há aproximadamente 1.250 anos antes da vinda do Cristo à Terra [3]. Na atualidade, passados mais de 3.250 anos, sob a ótica espiritual, quantos ainda não passam por desertos existenciais? Quantos não se deixam prender em escravidões mentais com receio de dar passo a mais? Quantos não precisam transitar por caminhos mais longos de forma a exercitar a fé? Mas, quando fores convidado, vai! disse Jesus [1]. Esse é o convite que Jesus faz a todo momento e que ressoa ao longo dos séculos!

No meio desses desertos, a Providência Divina, isto é, a solicitude de Deus para conosco, permanece zelosa e pode ser constatada na manifestação de Deus a Moisés, obviamente por meio da Espiritualidade Superior [1]: Eis que farei chover pão do céu; sairá o povo e colherá a porção de cada dia, a fim de que eu os ponha a prova para ver se anda ou não na minha lei [1]. Ao pão, caído do céu feito chuva, a casa de Israel deu-lhe o nome de maná. Era como semente de coentro, branco e o seu sabor como bolo do mel [1]. Pode-se supor que o intuito de Deus fosse fazer com que o povo entendesse que nunca faltaria o amparo necessário, como era extremamente indisciplinado, a materialização do pão do céu, do maná, traria maior impacto.

O fato é que os israelitas comeram maná durante os quarenta anos que transitaram no deserto em busca da Terra Prometida de Canaã [1]. E, posteriormente, ao chegarem a Terra Prometida, o fornecimento terminou [1]. Mas por que terminou [1]? Certamente porque o povo de Israel estava então apto a novamente com o suor de seu rosto, comer o pão [1]. O objetivo (do maná) fora dar as condições de sobrevivência necessárias aos israelitas, os quais sozinhos no deserto não poderiam obter [5]. Mas não era propósito divino ficar os alimentando sempre sem que trabalhassem, nem encorajar a inércia ou a exploração comercial [5]. O trabalho é uma Lei Divina e toda ocupação útil, seja do espírito ou do corpo físico, é trabalho [7]. O trabalho funciona como expiação [7], ou seja, é pena imposta ao malfeitor que comete um crime [8] e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da natureza [7].

O maná fora concedido para ensinar que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor [1]. Em outras palavras, a Doutrina Espírita nos esclarece que para existir, o ser é sustentado não só pelo alimento material, visível e tangível, mas por tudo o que a Providência Divina lhe proporciona [5]. Neste mesmo sentido, Emmanuel pondera: Se procuras, pois, a própria felicidade, aplica-te com todas as energias ao aproveitamento do pão divino que desce do Céu para teu coração, por meio da palavra dos benfeitores espirituais, e aprende a subir, com a mente inflamada de amor e luz, aos inesgotáveis celeiros do pão celestial [9]. Pensemos nisso!

Referências

  1. Bíblia de Jerusalém. 3º ed. São Paulo, SP: Editora Paulus, 2011, 2.206 p.
  2. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131 ed. 3. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2013. 410 p.
  3. MOUTINHO, J. J. Os Profetas. Brasília, DF: FEB, 2009, 152 p.
  4. DAVIS, J. D. Novo Dicionário da Bíblia: ampliado e atualizado. São Paulo, SP: Editora Hagnos, 2005.1.304 p.
  5. OLIVEIRA, T. Jesus, O Cristo. Campinas, SP: Editora Allan Kardec, 2006. 101 p.
  6. DESERTO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2016. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Deserto&oldid=46481808>. Acesso em: 25 set. 2016.
  7. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos: filosofia espiritualista. 93 ed. 1 imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2013. 526p.
  8. AVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2008.
  9. EMMANUEL (Espírito). O Evangelho por Emmanuel – comentários ao Evangelho Segundo João/ coordenação de Saulo Cesar da Ribeiro da Silva. 1º ed. 1º imp. Brasília, DF: FEB, 2015.364p.